
Até breve!
"Madrugada de 25 de Abril de 74, parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém:
"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui."
Todos os 240 homens que ouviram estas palavras, ditas da forma serena mas firme, tão característica de Salgueiro Maia, formaram de imediato à sua frente.Depois seguiram para Lisboa e marcharam sobre a ditadura." , in Wiki
"Quem é, hoje, o mais conhecido e apreciado poeta português? A Academia divide-se, o que demonstra, uma vez mais, que a Academia não percebe nada do assunto. Inúmeros portugueses sabem de cor os seus versos - e, no entanto, a Universidade despreza-o, a crítica ignora-o, as selectas barram-lhe a entrada. Valha-nos o povo, especialmente aquela parcela do povo que é constituída por pessoas maiores de 50 anos que o venera. O mais famoso poeta da actualidade é, sem dúvida nenhuma, Tony Carreira. Fazia falta um estudo sério sobre a sua obra. Um pouco vergado sobre o fardo de ser sempre pioneiro a fazer o que faz falta, aqui o apresento.
O primeiro aspecto que o leitor de Tony Carreira deverá ter em conta é o seu universo vocabular. Carreira definiu um vocabulário restrito, não porque queira, como Eugénio de Andrade, estabelecer um conjunto de vocábulos essenciais e, a partir desse núcleo, obter uma expressividade reforçada pelos contextos inesperados em que eles surgem, mas, ao que tudo indica, porque conhece poucas palavras. E a maior parte das que conhece não tem muitas sílabas. Tony Carreira não perde tempo a procurar o adjectivo certo. Na dúvida, é tudo "lindo". É o caso da vida, no poema Não chores mais (« Não chores mais/ não nunca mais/ que a vida é tão linda»), da mãe, em Mãe querida («Hoje velhinha estás, querida mãezinha/ Mas para mim serás sempre tu a mais linda»), de uma casa, em Coração perdido («Hoje vives numa linda casa»), ou de várias coisas, no poema Ai que saudades ( nele, o herói parte de «uma casinha branca tão linda», recorda «esse cantinho doce e tão lindo» e anseia pelo regresso à «ilha linda (...) que o viu nascer», que é, evidentemente, a «a linda Madeira»).
Mas quem é, no fundo, Tony Carreira? No essencial, talvez um vagabundo.
O poeta apresenta-se como «Um eterno vagabundo» (em Quem era eu sem ti), declara: «Sou vagabundo, não vou parar» ( em A minha guitarra ), descreve-se como «Um romântico, meio vagabundo» (em Será que sou feliz), adianta que «Ninguém conseguia mesmo parar /O meu lado vagabundo» (em Um homem muda), define-se como um «Vagabundo feliz» ( em A vida que eu escolhi )e, no belíssimo Eterno Vagabundo, confessa:«Já pensei ter mulher / Ter um lar a condizer / Mas não deu / Porque o meu coração / É vagabundo / Até mais não.» Talvez o melhor retrato do poeta seja, de facto, o deste «vagabundo até mais não», uma vez que, como vimos, há muita indigência na poesia de Carreira ( e aqui estou a ser tão denotativo quanto conotativo ).
Enquanto poeta, Tony Carreira está preocupado com dois problemas principais: a quantidade de frases que, não terminando numa palavra acabada em «ar», não podem rimar com outras frases que terminem numa palavra acabada em «ar» ( e por isso recorre com frequência a belas anástrofes, como em Morena Bonita: «Um dia destes eu com ela vou falar / Vou fazer tudo p'ra seu amor conquistar»); e as idiossincrasias do amor, e as perplexidades que elas causam. Neste capítulo, são exemplares os poemas Qualquer dia posso-me cansar («E quando as coisas correm mal porque é que tu me ofendes / Se ao fim da noite queres fazer as pazes na cama?») e Cai nos meus braços, Maria ( Tu que estás aí dançando / Faz aquilo que eu desejo / Vem para mim bamboleando / Escorrega nos meus lábios»), sendo que este último parece alertar para o carácter traiçoeiro dos beijos, que ora fazem tropeçar ora saem de lábios escorregadios.
A registar por quem, desejando entregar-se aos prazeres do amor, não queira, ainda assim, partir uma perna.
Fica o incentivo para uma leitura atenta da poesia de Tony Carreira - que, por ser inclassificável, não me sinto capaz de adjectivar. A não ser, talvez, com a expressão:«muito linda»."
Ricardo Araújo Pereira
Visão
Para ser grande, sê inteiro
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis
Poema
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).
Álvaro de Campos
Hoje de manhã saí muito cedo
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro
Quando é que o cativeiro
Quando é que o cativeiro
Acabará em mim,
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?
Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?
Quando, ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?
Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.
Fernando Pessoa
Urgentemente
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… E não sou nada!…
(Florbela Espanca, «Livro de Mágoas», in «Poesia Completa»)
Sempre gostei deste poema, acho que o segredo está no último verso.
Pirata
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
Sophia de Mello Breyner Andresen